domingo, 23 de maio de 2010
O Amor Antigo - Texto…
“O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.”
P.S.: A moderação pede desculpas pela ausência. Tivemos alguns problemas, mas agora estamos de volta.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Memória…
“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.”
Pessoal, pedimos que enviem sugestões, ideias, críticas, elogios, enfim…o que quiserem, pois o blog é feito para vocês, sendo assim tudo que vier será útil para algum momento.
Esperamos poder contar com vocês!!!
Atenciosamente,
A Moderação.
domingo, 11 de abril de 2010
No meio do caminho…
Um de seus poemas mais conflitantes…
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”
sábado, 3 de abril de 2010
Definitivo – Texto…
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...
domingo, 28 de março de 2010
Antologia Poética (1962)
Dividido em nove partes, que correspondem a diferentes universos temáticos definidos pelo próprio autor, o livro oferece uma visão geral da criação de Carlos Drummond de Andrade desde sua estréia até o início da década de 1960
Organizada pelo próprio Carlos Drummond de Andrade e publicada em 1962, a Antologia Poética reúne textos que originalmente saíram em diversos livros. A obra foi dividida pelo autor em nove partes, cada uma correspondente a um universo temático específico. São as seguintes: um eu todo retorcido; uma província: esta; a família que me dei; cantar de amigos; na praça de convites; amar-amaro; poesia contemplada; uma, duas argolinhas; tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo.
O SER E O MUNDO
A seleção que Drummond empreendeu revela alto grau de consciência do escritor sobre seu fazer poético. Os temas que escolheu são basicamente os mesmos que a crítica, no futuro, sintetizaria como os fundamentais em sua vasta obra.
Há uma tensão na poesia de Drummond, principalmente a partir do livro Sentimento do Mundo (1940), que faz o poeta questionar sua atividade com extrema severidade. Tal tensão tem como eixo temático uma oposição entre o ser do poeta e o mundo exterior. Quando o eu-lírico se volta para si, sente que seria melhor dirigir-se ao mundo; quando se volta para o mundo, sente que seria menos pretensioso limitar-se à esfera do ser.
No “Poema de Sete Faces”, o polo do ser tem prioridade, como mostram os seguintes versos:
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Num poema posterior, “Mundo Grande”, o eu-lírico parece responder àquela sentença:
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Essa tensão de impulsos contraditórios será a origem de todos os desdobramentos temáticos indicados pelo poeta.
1) Um eu todo retorcido
Na primeira parte do livro estão poemas que tratam da questão do indivíduo. O eu-lírico fragmentado se apresenta como um deslocado no mundo, na figura do gauche (palavra francesa que significa, literalmente, esquerdo).
A imagem retoma a tradição francesa do poeta inadaptado, que tem como referência central Charles Baudelaire. Isso ocorre, por exemplo, no próprio “Poema de Sete Faces”:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
2) Uma província: esta
Nessa seção, há poemas sobre a terra natal do autor. Permeados de atmosfera nostálgica, não se deixam levar pelo saudosismo, mas, antes, questionam o espaço natal, colocando sempre em evidência que o espaço é também uma criação subjetiva.
Trata-se, portanto, de um prolongamento da questão do eu em relação ao mundo. Em “Confidência do Itabirano” diz:
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação
3) A família que me dei
Os poemas expressam uma profunda reflexão do poeta sobre o atributo da memória. A família é criação do eu. A memória cria nostalgia e saudade, a partir do presente, articulando fragmentos esparsos de um passado sem nenhum sentido pressuposto. O questionamento a respeito da memória deve destruir a sua ilusão para recompô-la em seguida, no plano da criação poética. Um exemplo é “Infância”:
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
4) Cantar de amigos
Esse bloco de poemas trata da temática da amizade, mas de uma amizade estabelecida no plano poético, como se os amigos fossem ligados ao eu-lírico, esse “Carlos” mitológico, que não deve ser confundido com o próprio poeta e que saúda Manuel Bandeira, nos belos
versos de “Ode no Cinqüentenário do Poeta Brasileiro”:
Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.
5) Na praça de convites
Poesia que se aproxima do lúdico. Procura-se, nos herméticos caminhos da linguagem, um sentido para a atividade poética no mundo contemporâneo.
Resta à poesia o jogo desinteressado com a linguagem, como uma prática da arte mais técnica, uma espécie de poesia para poetas. Veja-se “Política Literária”:
O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.
6) Amar-amaro
Aparece aqui a tensão entre o mundo exterior e o ser do poeta. É um momento de angústia e medo, que lembra bastante a perspectiva da II Guerra Mundial (1939-1945). Em “Sentimento do Mundo”, o poeta diz:
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
O eu-lírico mostra sua pequenez enquanto matéria, mas acredita numa forma de transformação social, que se mantém apenas como perspectiva embrionária. Essa “esperança” não é apenas na transformação do mundo exterior, mas de todas as relações humanas. Quase sempre, porém, tal perspectiva é sufocada por forças gigantescas que partem a unidade dos seres e os tornam incomunicáveis e incompreensíveis uns aos outros e a si mesmos. Em “O Elefante”:
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais
7) Poesia contemplada
Poemas de cunho metalinguístico, ou seja, em que o poeta constrói uma reflexão sobre o próprio fazer poético. O senso estético do autor alcança grande dimensão de consciência, e a tensão entre o eu e o mundo se atenua, já que o eu-lírico suspende a existência de ambos para situar-se no território da linguagem (“penetra surdamente no reino das palavras”).
Drummond atinge, nesse momento, uma dimensão parecida com a do poeta francês Stéphane Mallarmé, numa postura de arte pela arte, ou seja, a arte existe por si e é justificativa de si mesma. O poeta não deve, portanto, buscar a expressão de qualquer sentimento, sensação ou objeto exterior. O tema de sua poesia está no nada que se esconde por trás das coisas, esse nada que as cria e que é a própria linguagem. O poeta parece compreender que tudo o que está no poema só existe como linguagem. Em “Procura da Poesia”, diz:
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
8) Uma, duas argolinhas
Poemas sobre o conhecimento amoroso, nos quais a própria natureza do amor é contestada: ele será visto mais como criação subjetiva do que como fenômeno exterior, um dado natural. O angustioso ato de amar, no entanto, não se contenta em saber disso e tem quase sempre um desfecho triste, um travo amargo.
O amor, tema que foi tão largamente utilizado pela poesia e por isso poderia parecer desgastado, ganha nova significação, numa estrutura poética que leva em conta o próprio ato criativo implícito na experiência subjetiva do amar. O poeta não expressa o amor, mas cria uma narrativa sobre esse sentimento, como em “O Amor Bate na Aorta”:
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
9) Tentativa de exploração e de interpretação do estar no mundo
O mundo aparece como uma “máquina” sem sentido prático a priori. O eu busca uma compreensão impossível, que está para além das coisas. O ideal de uma arte pura tropeça nos impedimentos do mundo, na simbologia dos objetos: a “pedra no meio do caminho”, o “resíduo”. Após a destruição do mundo, busca-se o que resta, essas marcas que permanecem, que perduram na existência e resistem, de maneira precária, à ação do tempo. “Tristeza no Céu”:
No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.
http://guiadoestudante.abril.com.br/estude/literatura/materia_417345.shtml
Mais um de seus belos poemas…
Esse é um dos quais mais aprecio.
Leia e se delicie:
“NÃO DEIXE O AMOR PASSAR
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.”
segunda-feira, 22 de março de 2010
Resíduo – Texto…
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
A Rosa do Povo (1943-45)
A Rosa do Povo é um livro de poesias brasileiro, escrito pelo modernista Carlos Drummond de Andrade entre 1943 e 1945. É a mais extensa obra do autor sendo composta por 55 poemas, também sendo a primeira obra madura e a de maior expressão do lirismo social e modernista. A obra é considerada como uma tradução de uma época sombria, que reflete um tempo, não só individual, mas coletivo no país e no mundo onde o autor capta o sentimento, as dores, e a agonia de seu tempo. No título A Rosa do Povo, a rosa representa a poesia (expressão), das pessoas daquela época.
Características
- Embora seu próprio título tenha uma simbologia revolucionária e seja composta de vários poemas sociais, apresenta grande variedade temática e técnica.
- Os poemas são constituídos de metáforas, com freqüência também aparecem elipses e imagens surrealistas. São poemas refinados, complexos e acessíveis somente a leitores com significativa informação poética.
- A obra representa na poesia uma tensão entre a participação política (adesão às utopias esquerdistas) e a visão cética (desencantada). Não devemos entender esta duplicidade como contraditória. Toda a obra do autor é marcada por uma visão caleidoscópica, polissêmica.
A realidade possui várias faces e são vistas de várias perspectivas, o que nunca gera uma opinião e o fluxo desordenado da vida não permite certezas.
- O poeta utiliza tanto do "estilo sublime" (padrão elevado da língua culta) quanto do "estilo mesclado" (linguagem elevada e linguagem coloquial).
- Os versos curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas).
- Em relação às obras anteriores, o humor quase desaparece, o coloquial é atenuado e um tom grave e solene passa a impregnar os versos.
- As inquietações sociais ganham uma historicidade mais plena, referindo-se várias vezes ao cotidiano e aos acontecimentos concretos da década de 1940.
Temáticas
| Poesia Social (povo)
Reflexão Existencial (eu e o mundo)
Metalingüística (poesia sobre a própria poesia)
| O Passado
O Amor
O Cotidiano
Celebração dos Amigos
Paródia
|
Ver artigo completo em: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Rosa_do_Povo
sexta-feira, 12 de março de 2010
Brejo das Almas (1934)
Brejo das almas, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicado em 1934 e foi muitas vezes considerado pela crítica um livro à sombra do restante da aclamada obra desse autor. Contudo, hoje este livro é de fundamental importância para que se possa acompanhar o desenvolvimento da obra drummondiana. A obra situa-se entre dois grandes livros do poeta Alguma Poesia, seu livro de estréia, e Sentimento do Mundo, uma de suas obras mais festejadas.
Nele não há o "compromisso programático" explícito com o Modernismo, como em Alguma Poesia. Desaparecem os poemas-piadas, a necessidade de escandalizar. Parece ter havido maior preocupação na seleção dos textos. Tem-se um Drummond surrealista (no poema Registro Civil e suas imagens incômodas); o poeta que é anti-lírico e amargo ao falar do Amor (Boca, Não se mate, Necrológio dos desiludidos do amor); germina aqui também certa percepção "política" que seria marcante em livros ulteriores (por exemplo, no poema Hino Nacional, com seu famoso último verso: "Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?")
Um dos conflitos presentes em toda obra de Drummond fica muito evidente em Brejo das Almas: o Eu x Mundo. O conflito entre província e metrópole, sendo a província, Minas Gerais, e a metrópole, o Rio de Janeiro. O poeta usa Minas Gerais para enaltecer o mundo, canta as Minas Gerais, em contraponto ao gauchismo do Rio, onde Drummond se sentia desarticulado diante do mundo.
Mas o livro vale sobretudo por Convite triste, Segredo - que tematizam o desencanto e a inadaptação ao mundo e a vida pelas "almas sensíveis" - e Girassol, jóia de rara perfeição.
O “Convite triste” é, ironicamente, uma apologia do festivo. Funda-se sobretudo num ideal de embriaguez que se projeta para uma destruição completa do sujeito, havendo com isso uma necessidade de intoxicação do corpo pelo excesso, até chegar a um estado de alienação ou de autodestruição temporária, dado à consciência finita da condição humana:
“beber, gritar e morrer,
ou quem sabe? beber apenas
(...)
depois vomitar e cair
e dormir.”
Diante da impossibilidade de transcendência, eleva-se aquilo que há de mais humano no sujeito – o corpo – chegando a um quase estado de exaustão, de esgotamento do físico.
Na exaltação do humano, o corpo que paradoxalmente é fundamental na construção dessa subjetividade antiépica, é ao mesmo tempo impulsionado a uma total destruição, sendo até mesmo negado. Negação que se dá, não somente tendo o corpo como objeto de desejo, mas o próprio corpo, em si desejoso, tornado abjeto:
“Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.”
O caminho para representar essa crise se vê refletido na própria linguagem que articula o discurso niilista. A estrutura anafórica do poema colabora com o encharcamento deste sentido, dando a impressão de um transbordamento textual na poética do excesso que se vai constituindo. A repetição promove um inchamento da linguagem até o ponto em que ela se vê inflacionada, saturada, de tal forma que corpo físico e corpo textual confluem numa mesma realidade, retratando a experiência do sujeito.
Nos versos finais do poema, a aguda consciência da crise parece projetar para um beco sem saída do qual não se pode escapar nem mesmo com a morte individual, pois diante de tal escolha, subsistiriam os demais humanos e o aparente tormento da realidade. Constatado isto, o sujeito parece aceitar a condição, restando-lhe apenas intoxicar-se até os limites: até o vômito, depuração do corpo; até o sono, suspensão temporária possível; até a vez seguinte: ironicamente, até a “Aurora”:
O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.
[…]
Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
Com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.
“Aurora” coincide na sua temática com as questões levantadas na análise do poema anterior: nos versos iniciais o amanhecer que normalmente projeta o princípio da vida, revela, paradoxalmente, o princípio do fim, isto é, da morte. Curiosamente, o estado de embriaguez, de inconsciência do sujeito, é equacionado com a inocência da criança, fazendo de ambos os únicos capazes de perceber o presente apocalíptico do mundo:
“Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada).”
O estado de inconsciência desses dois sujeitos favorece a consciência da realidade, da existência e do seu fim trágico. A identificação do poeta com a criança – símbolo da sapiência inocente – serve ao mesmo tempo para distanciá-lo do mundo dos adultos, privilegiado ainda mais por seu estado de intoxicação. Ao fazer isto, o sujeito lírico nega todo o presente utilitário, o qual seria o próprio vir-a-ser dessa criança. Assim, qualquer ato utilitário da existência se vê esvaziado,
numa gratuidade do cotidiano:
“Últimos pensamentos! últimos telegramas! José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.”
Porém, a condição de poeta permite ao sujeito lírico entrever uma saída possível para esse fim trágico:
“O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora.”
Como se a tragicidade estivesse presente na natureza humana mais que na natureza em si, o poeta vislumbra na invocação da aurora um novo sentido da existência, recuperando com isso o significado primeiro do amanhecer como positividade. Equaciona-se com isto a natureza com o sentido lúdico da natureza humana presente na dança, na celebração festiva do corpo. A voz oracular da aurora, presente no uso da segunda pessoa do plural (vós) – “dançai, meus irmãos! / Embora sem música / dançai, meus irmãos!” – passa a prometer um ideal de transcendência capaz de superar o terreno.
No poema “Aurora”, o sujeito lírico embora consciente da precariedade evita a atitude niilista advinda do futuro trágico ao fazer uma apologia festiva da existência. Aqui, como em alguns poemas da obra anterior, o dramatismo da existência é minimizado. Se anteriormente existia certa gratuidade no riso irônico do sujeito lírico, ou ele estava marcado por um ceticismo advindo da inconseqüência do trágico, aqui o que se observa é a exaltação, quiçá irônica, da existência presente. A partir da inutilidade do presente, nega-se a utilidade do corpo enquanto ação pessoalizada, desfazendo-se assim numa sublimação dele, para com isso propor uma libertação da cotidianidade útil do corpo.
O sentido apocalíptico se desfaz numa espécie de delírio carnavalizado, sublimando-se nas positividades do corpo, naquilo que de lúdico e festivo a existência
apresenta: a dança, o nascimento dos filhos (metonimicamente, o desejo sexual), o amor e os produtos comerciais. Seria dizer, de uma economia da reprodução.
Cabe notar aqui que a promessa desse porvenir da aurora nada mais é que uma visão ironizada da modernidade, no que diz respeito à produção industrial
capitalista.
O que se encontra acentuado é a gratuidade da produção, do seu sentido de acumulação. Ao excesso de produção equacionam-se os sentimentos (desejo/amor) como parte da produção de massa da sociedade moderna, materialista em si, porém rica em promover e sujeitar o indivíduo a uma pluralidade de desejos.
Assim, mesmo que a aurora pareça projetar o tempo futuro, paradoxalmente o tempo que se projeta é o tempo presente, de tal forma que qualquer transcendência seria mera contigência do instante presente do corpo. Ironicamente, “a salvação possível” estaria por advir desses “presentes” possibilitados pela modernização.
O futuro trágico como decadência do corpo é reconfigurado em nome de um cantar da plenitude do corpo presente, no qual a morte enquanto fim ou negatividade seria uma mera sacramentalização do corpo moderno.
Outro poema evocativo do pessimismo e do tom dionisíaco em Brejo das Almas que merece consideração é “Um Homem e o seu Carnaval”:
Deus me abandonou
no meio de uma orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca,
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
[…]
O verso inicial remete-nos de imediato a certo sujeito agônico presente no “Poema de Sete Faces”, de Alguma poesia (“Meu Deus, por que me abandonaste / se sabias que eu não era Deus / se sabias que eu era fraco.”) No entanto, se em Alguma poesia o sujeito lírico oscilava entre o desejo de transcedência e reconhecimento da condição precária do sujeito, aqui o dilema resolve-se na carnavalização do divino, numa maior aceitação e conseqüente exarcebação do elemento humano. Persiste ainda a presença excessiva do sujeito, sobretudo na individualização da experiência coletiva do carnaval para o entendimento da subjetividade lírica. Ironicamente, o abandono individual é projetado num espaço da coletividade, da orgia, no qual o sujeito desaparece na multidão dos corpos. A experiência do sujeito se constitui no nível do delírio. A sua consciência se articula a partir de um total apagamento de si enquanto presença física individual, a ponto de restar apenas uma sensação do corpo e da própria realidade.
Nesse ambiente, o processo de degeneração do sujeito se intensifica e se vê refletido na própria destruição do corpo, desde o físico até os limites da linguagem que o mesmo articula. O anseio é o da destruição total e absoluta do ser. O indivíduo desaparece enquanto sujeito físico, projetando-se para uma completa decadência do corpo, assumindo um aspecto cadavérico, como sugere o adjetivo “lívido”. Por outro lado, a linguagem vai se caracterizando pela perda da voz, pela impossiblidade de comunicação ou de articulação discursiva: “Estou lívido, gago.”
No entanto, o elemento trágico se minimiza diante do aspecto delirante do poema. O sentimento de angústia se reduz na própria aceitação do abandono divino ou mesmo na constatação da impossibilidade de realização do desejo físico, projetado na figuração metonímica do corpo feminino:
“Eternas namoradas
riem de mim demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.”
Ainda que esteja presente a destruição gradativa do sujeito, não há tragicidade na morte. A morte é equacionada com a experiência carnavalesca, lúdica e gozosa, colaborando o próprio corpo textual na figuração desta realidade de sonhos, de puro fluir da subjetividade, como é verificado na ruptura da linearidade da linguagem, na ausência de pontuação, na repetição dos vocábulos – nas “palavras em liberdade” que nos remetem às estéticas de vanguarda surrealista e futurista. Na última estrofe, por exemplo, o delírio do corpo físico se converte no delírio do próprio corpo textual:
“Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éte
grandes abraços largos espaços
eternamente.”
Como já foi visto na análise dos poemas anteriores, o corpo funciona como parâmetro fundamental na constituição da subjetividade no entendimento da relação desse sujeito com a modernidade, sobretudo diante da constatação da sua impossibilidade de transcendência. No grupo de poemas a seguir, vê-se como o corpo como desejo físico ganha extremada relevância numa espécie de “brejeirização da alma.” Na apologia do amor brejeiro, impudico, o que se observa, a partir de agora, é uma acentuação do elemento humano do sujeito no que diz respeito ao desejo sexual. A temática que organiza esse grupo de poemas gira em torno a uma apologia do corpo desejoso como forma constitutiva da subjetividade, convertendo-o numa potencialidade, como já vinha sendo vislumbrado no processo de intoxicação do corpo, discutido anteriormente. Contudo, se por um lado a subjetividade, no que se refere à saturação do humano, se constitui como reflexo do
Desencantamento do Mundo, ao mesmo tempo ela se articula também como suposta reação à própria modernidade enquanto projeto de racionalização, sobretudo quando essa positividade se vê constituída a partir do desejo como mola propulsora da individualidade, como se nota nos poemas “O Passarinho
Dela,” “O Vôo Sobre as Igrejas,” “Canção Para Ninar Mulher,” no “Desdobramento de Adagilsa,” entre outros.
Observa-se que a posição do sujeito drummondiano com a modernidade é uma posição ambígua. Se por um lado se reconhece a Morte de Deus, por outro lado, a exaltação extremada do elemento humano enquanto sujeito desejoso mina o próprio ideal racionalizador quando se tem em mente certa tradição do pensamento moderno ocidental que busca definir a superioridade da razão sobre o desejo como forma necessária para disciplinar o sujeito.
A ambiguidade do sujeito drummondiano nasce exatamente a partir do momento em que se propõe o corpo desejoso como parte constitutiva da subjetividade e não como uma ameaça a ela.
Drummond estaria, por assim dizer, contrapondo ao discurso da modernidade de controle do desejo uma proposta de liberação do sujeito desejante como potencial.
Assim vista, a atitude escolhida pelo sujeito constitui em si uma transgressão da ordem instituída, situando, ou distanciando o sujeito num espaço crítico dessa
mesma realidade na qual ele se acha inserido, como revela o poema “Em Face dos Últimos Acontecimentos” (“Oh! sejamos pornográficos”).
Nesta reflexão, pode-se dizer que a apologia do desejo é a espinha dorsal da subjetividade lírica deste grupo de poemas de Brejo das Almas. O tema sexual, de certo modo já insinuado nos poemas de tom niilista analisados anteriormente, aqui ganha acentuada relevância, como mostra o poema “O Vôo Sobre as Igrejas".
Em “O Vôo Sobre as Igrejas” a tentativa de afastamento do divino e aproximação do mundo terreno volta a ter lugar, contudo com uma ênfase maior no desejo sexual. “O Vôo Sobre as Igrejas” nos remete de certo modo a alguns poemas de Alguma poesia, cujo tema busca retratar as cidades históricas de Minas.
Enquanto no livro anterior o poeta prioriza a descrição das cidades no seu aspecto físico, neste poema, em particular, a priorização constitui-se sobre a figura histórica do Aleijadinho, sobretudo do seu aspecto humano. Em “O Vôo Sobre as Igrejas”, não escapa ao leitor a lembrança de “Romaria” da obra anterior, no entanto a impressão que se tem é que aqui há uma romaria muito particular, individualizada:
Vamos até à Matriz de Antonio Dias
onde repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho.
Vamos subindo em procissão a lenta ladeira.
Padres e anjos, santos e bispos nos acompanham
e tornam mais rica, tornam mais grave a romaria de assombração.
Um movimento interno no poema marca o distanciamento gradativo do sujeito lírico do seu objeto de contemplação. Há um corte no poema, a partir do qual se vislumbra um momento de revelação, onde o passado vai se dissipando deixando entrever o presente, o real sem nenhuma mística, no momento em que o sujeito lírico vai deixando para trás a procissão:
Mas já não há fantasmas no dia claro,
tudo é tão simples,
tudo tão nu,
as cores e cheiros do presente são tão fortes e tão urgentes
que nem se percebem catingas e rouges, boduns e ouros do século 18.
Vamos subindo, vamos deixando a terra lá embaixo.
Nesta subida só serafins, só querubins fogem conosco,
de róseas faces, de nádegas róseas e rechonchudas,
empunham coroas, entoam cantos, riscam ornatos no azul autêntico.
Gradativamente a descrição do ambiente sacro da procissão cede lugar à exaltação do elemento humano do Aleijadinho numa dessacralização da figura histórica. O sujeito lírico se distancia cada vez mais do ambiente religioso, e, paradoxalmente, o ideal de ascensão se dá de forma inversa: os anjos que o acompanham – salienta-se aqui o detalhe sexual na caracterização dos mesmos – passam a acompanhá-lo, não para o celestial mas sim para aquilo que é mais terreno, aquilo que é mais humano:
Este mulato de gênio
lavou na pedra-sabão
todos os nossos pecados
as nossas luxúrias todas,
esse tropel de desejos,
essa ânsia de ir para o céu
e de pecar mais na terra:
este mulato de gênio
subiu nas asas da fama,
teve dinheiro, mulher,
escravo, comida farta,
teve também escorburto
e morreu sem consolação.
O tom religioso inicial e de mistério vai desvelando a subjetividade nova que começa a constituir-se, e que de certa forma coincide com a própria subjetividade lírica que se vinha constituindo nos poemas analisados anteriormente, sobretudo na crise espiritual do sujeito. A subjetividade barroca do Aleijadinho reflete ao mesmo tempo a preocupação do sujeito lírico drummondiano tensionada entre o mundano e o espiritual, entre o desejo de conciliar o erótico com o espiritual.
Na construção da subjetividade da figura do Aleijadinho observa-se o mesmo desejo de saturação humana que já fora notado antes. Ou seja, a exaltação de tudo que seja excesso terreno, corporal, para com isto evidenciar a precariedade da condição humana: o abandono sem consolação, do qual não resta sequer a memória do corpo físico “já sem esperança / sem lembrança.”
Enquanto a exaltação do humano traz a marca do excesso, a precariedade caracteriza-se por um completo esvaziamento físico do sujeito representado, do qual não resta nem corpo nem memória histórica, senão – e apenas – a ilusão de uma suposta existência:
Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
[…]
Ecos dessa aparente tensão de característica barroca, entre o espiritual e o mundano, na subjetividade lírica drummondiana ressoam também no poema “Castidade”:
O perdido caminho, a perdida estrela
que ficou lá longe, que ficou no alto,
surgiu novamente, brilhou novamente
como o caminho único, a solitária estrela.
Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, suja toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
os dois brilham tanto que me apago neles.
Mas certamente pecarei de novo
(a estrela cala-se, o caminho perde-se),
pecarei com humildade, serei vil e pobre,
terei pena de mim e me perdoarei.
De novo a estrela brilhará, mostrando
o perdido caminho da perdida inocência.
E eu irei pequenino, irei luminoso
conversando anjos que ninguém conversa.
Aqui uma vez mais evidencia-se o tema da sexualidade e da religiosidade, contudo com maior clareza a subjetividade se define a partir do princípio do desejo como força capaz de superar o religioso. Ecoa o peso cristão na consciência do sujeito no sentido de apagar da carne o sentido do desejo, na própria abnegação do corpo, numa prática típica da retórica cristã.Porém, na aparente confissão, desaparece o sentido de culpa, e o perdão advém da aceitação do desejo como parte dessa subjetividade.
Diante disso, há um deciframento do sujeito lírico, o qual passa a se reconhecer desejante, encontrando no desejo a verdade do seu ser. Ainda que se reconheça certa abjeção ao corpo enquanto espaço do desejo, há no ato em si uma maior consideração, de tal forma que a transcendência possível encontra-se exatamente na aceitação da queda do sujeito, como revela a última estrofe: “E eu irei pequenino, irei luminoso / conversando anjos que ninguém conversa.”
Em princípio, o desejo em Drummond vai procurando visibilidade. Na sua matização a tendência maior dele é naturalizar-se, desaparecendo com isso a tensão interna entre o terreno e o espiritual. Contudo, persiste ainda uma outra forma de tensão interna: a dificuldade de se dominá-lo, como pode ser visto em “O Procurador do Amor,” e a impossibilidade de se defini-lo discursivamente, como se vê no “Desdobramento de Adalgisa” – características naturais da dialética do próprio desejo.
Brejo das Almas organiza-se em torno de uma subjetividade lírica marcadamente em crise, nascida como um reflexo da modernidade, sobretudo quando observamos a constatação da precariedade da existência humana e da impossibilidade de transcendência. Ao enfatizar o elemento humano, o sujeito drummondiano encontra uma resposta possível à modernidade.
Fonte parcial: Vivaldo Santos, Letras, UFMG
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/b/brejo_das_almas
Satânico – Texto…
Esse poema é considerado um dos maiores exemplos da irreverência do autor.
Leia até o final, pois vale muito à pena.
“Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo Filho da Puta!!!!”
Por hoje é só!!!
Até breve!!!
A Moderação
terça-feira, 9 de março de 2010
Alguma Poesia (1930)
Alguma Poesia
Como se sabe, Alguma Poesia (1930), o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, marca o início da segunda fase do Modernismo brasileiro, conti-nuando as experiências da geração anterior, sobretudo de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Os aspectos mais evidentes da herança modernista em Alguma Poesia são o versilibrismo, a oralidade, o prosaísmo, a supressão da pontuação convencional, a paródia, o humor, a linguagem telegráfica, a justaposição de frases nominais, a visão prismática do cotidiano: a cidade grande, a província, a fazenda. Todos esses procedimentos estilísticos e essas matérias acham-se sistematizados pelos primeiros modernistas, mas constituem também o modo de ser do livro inaugural de Drummond, cuja formação foi visceralmente marcada pela experiência da vanguarda dos anos 20.
De fato, as propriedades apresentadas acima aparecem tanto em Drummond quanto em qualquer modernista da primeira fase. Mas o que, especificamente, diferencia Alguma Poesia da poética de 22? Qual é a particularidade desse livro? O que o torna um livro singular? Sua particularidade decorre, sobretudo, de dois traços, ambos suficientes para lhe atribuir personalidade literária, autonomia artística e independência de concepção:
1. repetição exaustiva de vocábulos, associada à visualidade expressiva do poema;
2. recusa da abstração apriorística e valorização da experiência particular e concreta.
1. Repetição e visualidade
Drummond foi o primeiro poeta brasileiro a sistematizar o uso da tautologia ostensiva: empregou como nenhum outro as reiterações, de modo a produzir o efeito de desrazão ou absurdo, como é o caso dos célebres poemas "No Meio do Caminho", "Quadrilha", "Política Literária", "Sinal de Apito" e "Cidadezinha Qualquer". Além da redundância, Drummond aplica a esses poemas o que se poderia chamar de disposição gráfica expressiva, notada sobretudo nos dois primeiros desta série. Embora a redundância e a disposição gráfica expressiva, de origem cubo-futurista, surjam aqui e ali nos primeiros modernistas, nenhum deles adotou esses procedimentos de maneira tão sistemática e explícita quanto Drummond.
Trata-se de um formalismo que vai além do experimento gráfico ou do jogo de significantes entendidos como procedimentos auto-suficientes, pois resulta em investigações da existência, com implicações metafísicas e sociais. Excedendo os limites do jogo vocabular, tais poemas mimetizam a incoerência de certas situações. Nesse sentido, a forma (tautologia, grafismo) harmoniza-se com a matéria, faz parte da própria constituição do poema: pertencem à sua ontologia, a seu modo de ser e de significar.
Examine-se o mais famoso dos poemas tautológicos de Drummond:
No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nel Mezzo del Camin
Olavo Bilac
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
Além do título, que remete não só a Bilac, mas também a Dante Alighieri (o primeiro verso da Divina Comédia é "Nel mezzo del caminn de nostra vita"), Drummond imitou o esquema retórico do soneto bila-quiano, isto é, em vez de parodiar o significado, promo-veu um tipo especial de paródia: empenhou-se na imita-ção irônica da estrutura, reproduzindo apenas o quiasmo (repetição invertida) do texto, sem deixar de aludir rapidamente à imagem dos olhos, no centro do poema. Perceber que "No Meio do Caminho" se baseia na reite-ração irônica de uma figura da retórica clássica é já captar parte de seu significado, que decorre da intenção de acusar o cansaço da tradição. Além disso, Drum-mond atribui dimensão alegórica ao vocábulo pedra, que pode ser entendido como símbolo dos obstáculos que a gente encontra na vida, conforme sugeriu Antônio Cândido.
2. Elogio da experiência
Em Alguma Poesia, não há texto que parta de uma abstração, de um sentimento geral, de uma sensa-ção difusa, de um desejo vago ou de uma pretensão conceitual. O poeta lida com coisas e situações concre-tas, extraídas da observação irônica dos fatos. Trata-se de uma espécie de poética do empirismo. Todavia, pouquíssimas vezes os textos se esgotam no particular. Em quase todos, há uma conclusão generalizante, que resulta num conceito ou numa síntese conclusiva sobre a vida.
Observe-se o poema "Lagoa". Nele, o poeta afirma não se importar com o mar, porque nunca o viu. Preocupa-se com a lagoa, que faz parte de sua experiência. Por isso, a descreve com as tintas sensuais (quase femininas), quando o sol evidencia suas cores:
Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
Não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
Qual será o sentido dos vocábulos mar e lagoa no poema? Como em Minas (tópica mitificada na poesia drummondiana) não há mar, o vocábulo no poema representa uma abstração, um conceito longínquo, assim como a lagoa significa a experiência, o dado vivenciado. É desse último que se faz o poema, o qual resulta numa generalidade filosófica abstraído do concreto. Em última análise, esse poema glosa o princípio de que para falar do mundo deve-se falar da própria terra. É assim com Alguma Poesia. Mário e Oswald preocupam-se com o Brasil. Drummond limita-se a Minas. No o poema "Coração Numeroso", estando no Rio de Janeiro, ao longo do mar, a persona lírica afirma que a promessa do oceano se tornara calor sufocante, logo atenuado por um vento que vinha de Minas. Assim a segunda grande característica tipicamente drummondiana em Alguma Poesia é o culto do particular, uma espécie de respeito à autenticidade da experiência.
Na série "Lanterna Mágica", o poeta compõe pequenos mosaicos sobre algumas cidades de seu convívio (Belo Horizonte, Sabará, Caeté, Itabira, São João Del-Rei, Nova Friburgo, Rio de Janeiro). Ao abordar a Bahia, escreve simplesmente:
É preciso fazer um poema sobre a Bahia...
Mas eu nunca fui lá.
No conjunto dos textos agrupados sob o título de "Lanterna Mágica", esta unidade, a última das imagens que brilham na memória como os raios de uma lanterna mágica (antigo instrumento de projeção), funciona também como um elogio à experiência: isto é, a poesia deve partir da relação com as coisas, com os lugares e com as pessoas, jamais de sentimentos indefinidos.
Temas drummondianos
em Alguma Poesia
1. O indivíduo: Poema de Sete Faces
2. Terra natal: Cidadezinha Qualquer/ Romaria
3. A família: Infância
4. Amigos: nenhum poema
5. O choque social: Coração numeroso
6. Conhecimento amoroso: Quadrilha
7. A própria poesia: nenhum poema
8. Exercícios lúdicos: Sinal de Apito e Política Literária
9. Uma visão, ou tentativa de exploração e de interpre-tação de estar no mundo: No Meio do Caminho
Outros textos
Poema de Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu
[coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Gauche: termo francês, quer dizer torto, desajeitado
Compreensão
Cota zero
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Balada do amor através das idades
Carlos Drummond de Andrade
Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
Igreja
Tijolo
areia
andaime
água
tijolo
O canto dos homens trabalhando trabalhando
mais perto do céu
cada vez mais perto
mais
- a torre.
E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul.
No adro ficou o ateu,
no alto fica Deus.
Domingo...
Bem bão! Bem bão!
Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.
Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
(Carlos Drummond de Andrade)
Itabira
Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu caramujo cisma na derrota incomparável.
Poema da purificação
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador
Poema do jornal
O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de linotipos a doce música mecânica
Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Política literária
O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
QUERO ME CASAR
Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.
Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.
Depressa, que o amor
não pode esperar!
Sociedade
O homem disse para o amigo:
- Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
- Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho o homem resmunga:
- Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: - Que idiota.
- A casa é um ninho de pulgas.
- Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/algumapoesia
Eterno… (texto)
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade, que se petrifica,
e nenhuma força jamais o resgata!
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo,
mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas,
ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber..
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta.
Ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma.
Sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou “como vai”?
Difícil é dizer "adeus".
Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois.
Amar e se entregar.
E aprender a dar valor somente a quem te ama.
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá...
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer.
Ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Biografia Drummond
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.
Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.
Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.
Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.
CRÉDITOS BIOGRÁFICOS: http://www.releituras.com/drummond_bio.asp
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Navegando com Drummond
Esse blog está sendo feito para aqueles que, assim como eu, apreciam a obra de Carlos Drummond de Andrade.
Postarei aqui biografia, curiosidades, obras, resumos, vídeos e fotos do autor.
Estamos pesquisando informações concretas para que não haja riscos de erros.
Aceitamos elogios, críticas e sugestões, que devem ser enviadas para o e-mail abaixo:
mafe.oliveira92@gmail.com
Voltaremos em breve com mais informações.


