terça-feira, 9 de março de 2010

Alguma Poesia (1930)

Alguma Poesia

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      Como se sabe, Alguma Poesia (1930), o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, marca o início da segunda fase do Modernismo brasileiro, conti-nuando as experiências da geração anterior, sobretudo de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Os aspectos mais evidentes da herança modernista em Alguma Poesia são o versilibrismo, a oralidade, o prosaísmo, a supressão da pontuação convencional, a paródia, o humor, a linguagem telegráfica, a justaposição de frases nominais, a visão prismática do cotidiano: a cidade grande, a província, a fazenda. Todos esses procedimentos estilísticos e essas matérias acham-se sistematizados pelos primeiros modernistas, mas constituem também o modo de ser do livro inaugural de Drummond, cuja formação foi visceralmente marcada pela experiência da vanguarda dos anos 20.

      De fato, as propriedades apresentadas acima aparecem tanto em Drummond quanto em qualquer modernista da primeira fase. Mas o que, especificamente, diferencia Alguma Poesia da poética de 22? Qual é a particularidade desse livro? O que o torna um livro singular? Sua particularidade decorre, sobretudo, de dois traços, ambos suficientes para lhe atribuir personalidade literária, autonomia artística e independência de concepção:

      1. repetição exaustiva de vocábulos, associada à visualidade expressiva do poema;

      2. recusa da abstração apriorística e valorização da experiência particular e concreta.

1. Repetição e visualidade

      Drummond foi o primeiro poeta brasileiro a sistematizar o uso da tautologia ostensiva: empregou como nenhum outro as reiterações, de modo a produzir o efeito de desrazão ou absurdo, como é o caso dos célebres poemas "No Meio do Caminho", "Quadrilha", "Política Literária", "Sinal de Apito" e "Cidadezinha Qualquer". Além da redundância, Drummond aplica a esses poemas o que se poderia chamar de disposição gráfica expressiva, notada sobretudo nos dois primeiros desta série. Embora a redundância e a disposição gráfica expressiva, de origem cubo-futurista, surjam aqui e ali nos primeiros modernistas, nenhum deles adotou esses procedimentos de maneira tão sistemática e explícita quanto Drummond.

      Trata-se de um formalismo que vai além do experimento gráfico ou do jogo de significantes entendidos como procedimentos auto-suficientes, pois resulta em investigações da existência, com implicações metafísicas e sociais. Excedendo os limites do jogo vocabular, tais poemas mimetizam a incoerência de certas situações. Nesse sentido, a forma (tautologia, grafismo) harmoniza-se com a matéria, faz parte da própria constituição do poema: pertencem à sua ontologia, a seu modo de ser e de significar.

      Examine-se o mais famoso dos poemas tautológicos de Drummond:

No Meio do Caminho

      No meio do caminho tinha uma pedra

      tinha uma pedra no meio do caminho

      tinha uma pedra

      no meio do caminho tinha uma pedra.

      Nunca me esquecerei desse acontecimento

      na vida de minhas retinas tão fatigadas.

      Nunca me esquecerei que no meio do caminho

      tinha uma pedra

      tinha uma pedra no meio do caminho

      no meio do caminho tinha uma pedra.

Nel Mezzo del Camin

      Olavo Bilac

      Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

      E triste, e triste e fatigado eu vinha.

      Tinhas a alma de sonhos povoada,

      E a alma de sonhos povoada eu tinha...

      E paramos de súbito na estrada

      Da vida: longos anos, presa à minha

      A tua mão, a vista deslumbrada

      Tive da luz que teu olhar continha.

      Hoje, segues de novo... Na partida

      Nem o pranto os teus olhos umedece,

      Nem te comove a dor da despedida.

      E eu, solitário, volto a face, e tremo,

      Vendo o teu vulto que desaparece

      Na extrema curva do caminho extremo.

      Além do título, que remete não só a Bilac, mas também a Dante Alighieri (o primeiro verso da Divina Comédia é "Nel mezzo del caminn de nostra vita"), Drummond imitou o esquema retórico do soneto bila-quiano, isto é, em vez de parodiar o significado, promo-veu um tipo especial de paródia: empenhou-se na imita-ção irônica da estrutura, reproduzindo apenas o quiasmo (repetição invertida) do texto, sem deixar de aludir rapidamente à imagem dos olhos, no centro do poema. Perceber que "No Meio do Caminho" se baseia na reite-ração irônica de uma figura da retórica clássica é já captar parte de seu significado, que decorre da intenção de acusar o cansaço da tradição. Além disso, Drum-mond atribui dimensão alegórica ao vocábulo pedra, que pode ser entendido como símbolo dos obstáculos que a gente encontra na vida, conforme sugeriu Antônio Cândido.

2. Elogio da experiência

      Em Alguma Poesia, não há texto que parta de uma abstração, de um sentimento geral, de uma sensa-ção difusa, de um desejo vago ou de uma pretensão conceitual. O poeta lida com coisas e situações concre-tas, extraídas da observação irônica dos fatos. Trata-se de uma espécie de poética do empirismo. Todavia, pouquíssimas vezes os textos se esgotam no particular. Em quase todos, há uma conclusão generalizante, que resulta num conceito ou numa síntese conclusiva sobre a vida.

      Observe-se o poema "Lagoa". Nele, o poeta afirma não se importar com o mar, porque nunca o viu. Preocupa-se com a lagoa, que faz parte de sua experiência. Por isso, a descreve com as tintas sensuais (quase femininas), quando o sol evidencia suas cores:

      Eu não vi o mar.

      Não sei se o mar é bonito,

      Não sei se ele é bravo.

      O mar não me importa.

      Eu vi a lagoa.

      A lagoa, sim.

      A lagoa é grande

      E calma também.

      Na chuva de cores

      da tarde que explode

      a lagoa brilha

      a lagoa se pinta

      de todas as cores.

      Eu não vi o mar.

      Eu vi a lagoa...

      Qual será o sentido dos vocábulos mar e lagoa no poema? Como em Minas (tópica mitificada na poesia drummondiana) não há mar, o vocábulo no poema representa uma abstração, um conceito longínquo, assim como a lagoa significa a experiência, o dado vivenciado. É desse último que se faz o poema, o qual resulta numa generalidade filosófica abstraído do concreto. Em última análise, esse poema glosa o princípio de que para falar do mundo deve-se falar da própria terra. É assim com Alguma Poesia. Mário e Oswald preocupam-se com o Brasil. Drummond limita-se a Minas. No o poema "Coração Numeroso", estando no Rio de Janeiro, ao longo do mar, a persona lírica afirma que a promessa do oceano se tornara calor sufocante, logo atenuado por um vento que vinha de Minas. Assim a segunda grande característica tipicamente drummondiana em Alguma Poesia é o culto do particular, uma espécie de respeito à autenticidade da experiência.

      Na série "Lanterna Mágica", o poeta compõe pequenos mosaicos sobre algumas cidades de seu convívio (Belo Horizonte, Sabará, Caeté, Itabira, São João Del-Rei, Nova Friburgo, Rio de Janeiro). Ao abordar a Bahia, escreve simplesmente:

      É preciso fazer um poema sobre a Bahia...

      Mas eu nunca fui lá.

      No conjunto dos textos agrupados sob o título de "Lanterna Mágica", esta unidade, a última das imagens que brilham na memória como os raios de uma lanterna mágica (antigo instrumento de projeção), funciona também como um elogio à experiência: isto é, a poesia deve partir da relação com as coisas, com os lugares e com as pessoas, jamais de sentimentos indefinidos.

Temas drummondianos

em Alguma Poesia

      1. O indivíduo: Poema de Sete Faces

      2. Terra natal: Cidadezinha Qualquer/ Romaria

      3. A família: Infância

      4. Amigos: nenhum poema

      5. O choque social: Coração numeroso

      6. Conhecimento amoroso: Quadrilha

      7. A própria poesia: nenhum poema

      8. Exercícios lúdicos: Sinal de Apito e Política Literária

      9. Uma visão, ou tentativa de exploração e de interpre-tação de estar no mundo: No Meio do Caminho

Outros textos

Poema de Sete Faces

      Carlos Drummond de Andrade

      Quando nasci, um anjo torto

      desses que vivem na sombra

      disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

      As casas espiam os homens

      que correm atrás de mulheres.

      A tarde talvez fosse azul,

      não houvesse tantos desejos.

      O bonde passa cheio de pernas:

      pernas brancas pretas amarelas.

      Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu

      [coração.

      Porém meus olhos

      não perguntam nada.

      O homem atrás do bigode

      é sério, simples e forte.

      Quase não conversa.

      Tem poucos , raros amigos

      o homem atrás dos óculos e do bigode.

      Meu Deus, por que me abandonaste

      se sabias que eu não era Deus

      se sabias que eu era fraco.

      Mundo mundo vasto mundo

      se eu me chamasse Raimundo,

      seria uma rima, não seria uma solução.

      Mundo mundo vasto mundo,

      mais vasto é meu coração.

      Eu não devia te dizer

      mas essa lua

      mas esse conhaque

      botam a gente comovido como o diabo.

Gauche: termo francês, quer dizer torto, desajeitado

      Compreensão

Cota zero

      Stop.

      A vida parou

      ou foi o automóvel?

José

      E agora, José?

      A festa acabou,

      a luz apagou,

      o povo sumiu,

      a noite esfriou,

      e agora, José?

      e agora, Você?

      Você que é sem nome,

      que zomba dos outros,

      Você que faz versos,

      que ama, protesta?

      e agora, José?

      Está sem mulher,

      está sem discurso,

      está sem carinho,

      já não pode beber,

      já não pode fumar,

      cuspir já não pode,

      a noite esfriou,

      o dia não veio,

      o bonde não veio,

      o riso não veio,

      não veio a utopia

      e tudo acabou

      e tudo fugiu

      e tudo mofou,

      e agora, José?

      E agora, José?

      sua doce palavra,

      seu instante de febre,

      sua gula e jejum,

      sua biblioteca,

      sua lavra de ouro,

      seu terno de vidro,

      sua incoerência,

      seu ódio, - e agora?

      Com a chave na mão

      quer abrir a porta,

      não existe porta;

      quer morrer no mar,

      mas o mar secou;

      quer ir para Minas,

      Minas não há mais.

      José, e agora?

      Se você gritasse,

      se você gemesse,

      se você tocasse,

      a valsa vienense,

      se você dormisse,

      se você cansasse,

      se você morresse....

      Mas você não morre,

      você é duro, José!

      Sozinho no escuro

      qual bicho-do-mato,

      sem teogonia,

      sem parede nua

      para se encostar,

      sem cavalo preto

      que fuja do galope,

      você marcha, José!

      José, para onde?

Cidadezinha qualquer

      Casas entre bananeiras

      mulheres entre laranjeiras

      pomar amor cantar

      Um homem vai devagar.

      Um cachorro vai devagar.

      Um burro vai devagar.

      Devagar... as janelas olham.

      Eta vida besta, meu Deus.

Balada do amor através das idades

      Carlos Drummond de Andrade

      Eu te gosto, você me gosta

      desde tempos imemoriais.

      Eu era grego, você troiana,

      troiana mas não Helena.

      Saí do cavalo de pau

      para matar seu irmão.

      Matei, brigamos, morremos.

      Virei soldado romano,

      perseguidor de cristãos.

      Na porta da catacumba

      encontrei-te novamente.

      Mas quando vi você nua

      caída na areia do circo

      e o leão que vinha vindo,

      dei um pulo desesperado

      e o leão comeu nós dois.

      Depois fui pirata mouro,

      flagelo da Tripolitânia.

      Toquei fogo na fragata

      onde você se escondia

      da fúria de meu bergantim.

      Mas quando ia te pegar

      e te fazer minha escrava,

      você fez o sinal-da-cruz

      e rasgou o peito a punhal...

      Me suicidei também.

      Depois (tempos mais amenos)

      fui cortesão de Versailles,

      espirituoso e devasso.

      Você cismou de ser freira...

      Pulei muro de convento

      mas complicações políticas

      nos levaram à guilhotina.

      Hoje sou moço moderno,

      remo, pulo, danço, boxo,

      tenho dinheiro no banco.

      Você é uma loura notável,

      boxa, dança, pula, rema.

      Seu pai é que não faz gosto.

      Mas depois de mil peripécias,

      eu, herói da Paramount,

      te abraço, beijo e casamos.

Igreja

      Tijolo

      areia

      andaime

      água

      tijolo

      O canto dos homens trabalhando trabalhando

      mais perto do céu

      cada vez mais perto

      mais

      - a torre.

      E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

      O padre que fala do inferno

      sem nunca ter ido lá.

      Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.

      Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.

      A manhã pintou-se de azul.

      No adro ficou o ateu,

      no alto fica Deus.

      Domingo...

      Bem bão! Bem bão!

      Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.

Infância

      Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

      Minha mãe ficava sentada cosendo.

      Meu irmão pequeno dormia.

      Eu sozinho menino entre mangueiras

      lia a história de Robinson Crusoé,

      comprida história que não acaba mais.

      No meio dia branco de luz uma voz que aprendeu

      a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu

      chamava para o café.

      Café preto que nem a preta velha

      café gostoso

      café bom.

      Minha mãe ficava sentada cosendo

      olhando para mim:

      - Psiu... Não acorde o menino.

      Para o berço onde pousou um mosquito.

      E dava um suspiro... que fundo!

      Lá longe meu pai campeava

      no mato sem fim da fazenda.

      E eu não sabia que minha história

      era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

      (Carlos Drummond de Andrade)

Itabira

      Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê

      Na cidade toda de ferro

      as ferraduras batem como sinos.

      Os meninos seguem para a escola.

      Os homens olham para o chão.

      Os ingleses compram a mina.

      Só, na porta da venda, Tutu caramujo cisma na derrota incomparável.

Poema da purificação

      Depois de tantos combates

      o anjo bom matou o anjo mau

      e jogou seu corpo no rio.

      As água ficaram tintas

      de um sangue que não descorava

      e os peixes todos morreram.

      Mas uma luz que ninguém soube

      dizer de onde tinha vindo

      apareceu para clarear o mundo,

      e outro anjo pensou a ferida

      do anjo batalhador

Poema do jornal

      O fato ainda não acabou de acontecer

      e já a mão nervosa do repórter

      o transforma em notícia.

      O marido está matando a mulher.

      A mulher ensangüentada grita.

      Ladrões arrombam o cofre.

      A polícia dissolve o meeting.

      A pena escreve.

      Vem da sala de linotipos a doce música mecânica

Poema que aconteceu

      Nenhum desejo neste domingo

      nenhum problema nesta vida

      o mundo parou de repente

      os homens ficaram calados

      domingo sem fim nem começo.

      A mão que escreve este poema

      não sabe o que está escrevendo

      mas é possível que se soubesse

      nem ligasse.

Política literária

      O poeta municipal

      discute com o poeta estadual

      qual deles é capaz de bater o poeta federal.

      Enquanto isso o poeta federal

      tira ouro do nariz.

Quadrilha

      João amava Teresa que amava Raimundo

      que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

      que não amava ninguém.

      João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,

      Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

      Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

      que não tinha entrado na história.

QUERO ME CASAR

      Quero me casar

      na noite na rua

      no mar ou no céu

      quero me casar.

      Procuro uma noiva

      loura morena

      preta ou azul

      uma noiva verde

      uma noiva no ar

      como um passarinho.

      Depressa, que o amor

      não pode esperar!

Sociedade

      O homem disse para o amigo:

      - Breve irei a tua casa

      e levarei minha mulher.

      O amigo enfeitou a casa

      e quando o homem chegou com a mulher,

      soltou uma dúzia de foguetes.

      O homem comeu e bebeu.

      A mulher bebeu e cantou.

      Os dois dançaram.

      O amigo estava muito satisfeito.

      Quando foi hora de sair,

      o amigo disse para o homem:

      - Breve irei a tua casa.

      E apertou a mão dos dois.

      No caminho o homem resmunga:

      - Ora essa, era o que faltava.

      E a mulher ajunta: - Que idiota.

      - A casa é um ninho de pulgas.

      - Reparaste o bife queimado?

      O piano ruim e a comida pouca.

      E todas as quintas-feiras

      eles voltam à casa do amigo

      que ainda não pôde retribuir a visita.

http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/algumapoesia

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